Garras tem como personagem principal Valla, um ser metade mulher, metade animal. Ela terá de percorrer um caminho – em contramão – e superar vários obstáculos na busca de si mesma, das suas origens, e de um amor perdido.
Eva Mendes dá corpo a esta história através das suas ilustrações em acrílico sobre papel e tinta permanente. Traços fortes, rudes que, de certa forma, evidenciam o carácter dos seus personagens.
Como a autora escreveu, esta “é uma história de procura de personagens entre um corpo e uma mente que parecem estar errados, e que se vêem obrigadas a viver uma intimidade forçada, a substituir as palavras por gestos e olhares”.
As personagens, que vivem numa espécie de limbo, optam por se entregar à Natureza, ao mundo animal…
“O medo rangia na madeira à medida que as unhas das velhas patas se arranhavam nos próprios passos soando mais alto e mais perto.
O coiote tinha voltado para trás e entrava novamente em casa. Desta vez quase não lhe dando tempo de se esconder atrás das portinholas do armário onde já quase não cabia. Um animal selvagem pode ser feroz e o pai dela, de pêlo ensopado em álcool todas as noites, fazia justiça ao lugar‑comum.
Parou mesmo em frente ao esconderijo. Cambaleou esticando-se nas duas patas traseiras, largas e gastas da idade, da bebida. Esticando o focinho, aspirou o ar uma vez e rosnou o seu nome, fazendo-a encolher-se ainda mais. Rosnou, latiu e depois voltou a sair, não tornando.”
(em Garras, p.v.p. 7€)
Sobre a autora
Eva Vieira Mendes nasceu no Porto, em 1987. É licenciada em Artes Plásticas — Escultura, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto.
Estudou em Milão, na Accademia di Belli Arti di Brera, ao abrigo do programa Erasmus e neste momento está a tirar um Mestrado em Ilustração na ESAP, em Guimarães.
Tem participado em inúmeros projectos artísticos mas é na escrita que realmente deixa à solta o seu gosto pelo fantástico e onde as suas ilustrações encontram o parceiro perfeito.